Conheça a história de 10 emigrantes. As dificuldades que enfrentaram, os desafios que tiveram de vencer e as barreiras ao regresso.
SAIR: NÃO BASTA COMPRAR BILHETE DE AVIÃOFazer as malas é o mais fácil, o pior vem depois. Além da distância, a entrada num novo mercado de trabalho pode ser morosa e envolver uma teia burocrática.
Rio de Janeiro
Seis meses perdidos em embaixadas
Quando foi ao Brasil procurar emprego, Nuno Pereira estava longe de imaginar os seis meses e meio que demoraria a recolher toda a documentação. Depois disso, arrendar casa – no Rio e S. Paulo só se aplica a pessoas mais jovens e com salários mais baixos – foi uma "brincadeira". Para ter visto de trabalho a empresa tem de "explicar timtim por timtim por que quer contratar fora do país. A empresa tem até de abrir a folha salarial ao Governo para garantir que o valor que traz para a empresa justifica ganhar mais que um brasileiro. Nuno teve de provar todo o CV, o que o obrigou a recolher certificados da formação e das empresas por onde passou em Portugal, China e Finlândia e autenticá-los nas várias embaixadas do Brasil.
Long Branch
Há 10 anos ilegal, sem sair dos EUA
Poucos meses depois do 11 de Setembro de 2001, Bruno Machado rumou aos EUA para se juntar à namorada (agora esposa e mãe dos seus dois filhos, ambos norte-americanos) que já lá dava aulas de Português. Entrou com visto de três meses e empregou-se na construção civil, enquanto não encontrou trabalho na sua área, como técnico de refrigeração. Os atentados terroristas, primeiro, e a crise económica, depois, impuseram restrições adicionais à legalização. Já lá vão quase 10 anos (a pagar impostos) e nunca mais pôde regressar para ver a família, pois ficaria impedido de reentrar durante dez anos. "Está complicado legalizar mais gente. Se a economia recuperar é mais fácil porque há mais empregos e é preciso mais mão-de-obra".
Ilhéus - Bahia
Uma "novela" para entrar no navio
"A história toda dá uma novela", diz Isabel, bióloga marinha que trabalha como "marine mammal observer" em navios de pesquisa sísmica. A lei obriga a observar cetáceos e tartarugas marinhas para interromper a prospecção de petróleo, caso apareçam. E também diz que se o navio ficar mais tempo no país deve trocar a tripulação estrangeira por brasileiros. Entre a validação dos diplomas e convencer a empresa a tratar da documentação – até a responsabilizar-se pelos gastos de saúde e repatriamento – ter "trabalho de carteira assinada impede depois a prestação de serviços. Quando tentou mudar a autorização de trabalho há uns meses, após três meses de silêncio, disseram-lhe em Brasília que tinham perdido os papéis.
Southampton
Barreiras só o sotaque e sarcasmo
Para um cidadão da UE, o Reino Unido não é nenhum "bicho burocrático de sete cabeças", desde comprar carro até pagar o imposto municipal. Pedro Baptista trabalha na "Critical Software" e conta que qualquer estrangeiro que entre num projecto para o Ministério da Defesa sujeita-se ao "security clearance", um "check-up" ao passado. Quanto a dificuldades a sério, a primeira coisa de que se lembra, "e pondo de parte tudo o que envolve emigrar, é o sotaque e… o sarcasmo britânico. "Torna--se barreira a partir do momento em que vimos habituadíssimos ao inglês americano e há um choque de expressões e sotaques completamente diferentes que tornam peculiar uma língua fácil".
Pequim
Esperar por visto em Hong Kong
A comunicação e diferenças culturais são a óbvia dificuldade para um arquitecto português que chega à China, a que se junta o acesso "bastante caro" a cuidados de saúde por não haver ainda cobertura para os estrangeiros. Mas a principal barreira foi legalizar-se a nível laboral. O atelier pediu que Nuno Lobo viajasse rapidamente; o "filme" começou depois: demorou quatro meses a tratar dos documentos para o visto e autorização de trabalho e residência, e não pode alterar o visto na China. "O escritório entendeu que o melhor seria aguardar em Hong Kong e aí pedir o visto. Levou quase dois meses só a recolher a papelada legal e autorizações, assim como a certificação e tradução dos documentos", relata o arquitecto, em Pequim.
VOLTAR: POUCO EMPREGO E SALÁRIOS BAIXOS
Para quem já está fora, a hipótese de voltar esbarra em obstáculos como a falta de oportunidades laborais ou a desvalorização salarial que teriam de aceitar.
São Paulo
Poucas condições para criar filhos
Miguel Faria passou pela Coreia, EUA, Reino Unido e está agora no projecto de internacionalização para o Brasil da Catari, empresa portuguesa de andaimes e sistemas de escoramento. Emigrar até pode ser "a solução natural", mas discorda que seja um governante a dizê-lo. "Parece que querem livrar-se do problema e não resolvê-lo". Nessas palavras não encontra um estímulo ao regresso, "bem pelo contrário". Aos 36 anos, à espera do segundo filho, o que Miguel gostaria era de "poder olhar para Portugal e sentir liderança, principalmente política, e sentir que existem condições para dar um futuro" aos seus filhos. "O que se vê é um País que envelhece, produz cada vez menos e aconselha os jovens qualificados a emigrar", lamenta.
Bruxelas
Sem resposta dos empregadores
Depois de cinco anos de experiência em grandes projectos de desenvolvimento de software em vários países, Carlos Ribeiro quer deixar a Bélgica e juntar-se à namorada que vive em Coimbra para não adiar o seu projecto de vida: "vou-me casar no próximo ano e pretendo ter filhos num futuro próximo". Infelizmente, lamenta, os inúmeros contactos com empresas nacionais não obtiveram sequer resposta.
"No fundo, prova que exportar quadros jovens qualificados tem vantagens a curto prazo, mas hipoteca o único caminho possível para sair da crise: sem quadros jovens não há novas ideias, novas empresas, não há crescimento nem económico, nem cultural, nem pessoal", resume Carlos Ribeiro.
Milão
Regressar tem um preço elevado
"Estou muito preocupado com o País e comigo próprio porque não quero ficar para sempre fora". Esta é uma encruzilhada em que Tiago Serrão vive actualmente em Milão. Mas há uma mais imediata: aceitar uma proposta para ir para a Índia ou parar por uns tempos e voltar a Portugal, local em que, quando cá viveu, "não conseguia poupar nada, comprar casa ou pagar um aluguer". Com 34 anos, formado em Engenharia do Ambiente e com mestrado em Economia e Política da Energia, já viveu na Holanda, Canadá e Itália. Sabe que "voltar a Portugal tem um preço". "Cá fora sou reconhecido como um profissional valioso e o meu salário é três vezes superior ao que receberia em Portugal. É um 'downgrade' que eu teria de aceitar se quisesse voltar".
Frankfurt
Ofertas e respeito estão a "léguas"
Quando decidiu deixar a China em 2009, Catarina Rocha "teria gostado bastante de voltar a Portugal, mas as ofertas de emprego estavam a léguas de distância" das suas expectativas salariais. Além disso, conta "ter sido tratada com muita falta de profissionalismo pelos possíveis empregadores". Por segurança, candidatou-se simultaneamente para a Alemanha e foi o país de Merkel que "acabou por ganhar a corrida". Trabalha como "senior procurement manager" na Lufthansa Cargo e sente "algum peso na consciência" por não estar a dar retorno ao país que investiu na sua educação. "No entanto, sou suficientemente egoísta para pôr a minha pessoa acima dos interesses nacionais", acrescenta. A casa à beira-mar continuará a ser um sonho.
Tóquio
No supermercado sem olhar preços
As portas do Japão abriram-se para Elma Miranda em 2009 e ela não pensa fechá-las tão cedo, embora também lamente que se incentive "o produto do nosso investimento a criar riqueza para outras nações". As diferenças? Tirar férias fora do Japão duas ou três vezes / ano e tem "liberdade financeira para no supermercado não olhar a preços. Regressa nas férias para ver a família e amigos, mas para viver… "nunca digo nunca, mas não está nos meus planos". Entre o trabalho como freelancer e o mestrado, esta madeirense licenciada em Direito ainda pensa nos jovens portugueses, "rodeados de quem lhes fala incessantemente em crise e notícias negativas". "Deve ser aterrador pensar no amanhã num país que não tem visão futura", aponta.
